2ª PARTE



                                                 Considerações clínicas


                                                                 et


                                                          p o é t i c a s

                                                       





Na Colina da Meditação
Zigstophell caminha por entre ovelhas negras

“...Ora, ora... Por quê?
...Por que deveria eu revelar a Mágica?
...O que não há? (?!)”


- Ahá!
Então você não é mágico?

- Sim, talvez – diz Zigstophell soluçando
- Ahá! E também não há?!
- Sim, Horrorosa-Voz que se agita em ondas furiosas
dentro de mim
Apenas existo enquanto sensação de prazer.

- Então, fora destas colinas, Ser-Maldito!
Fora, intruso, do meu rebanho de ovelhas!

Por que também tu, Zigstophell?
Por que justamente tu deverias poluir-se assim no lodo?
Entre os detritos do liberalismo estético?
Do qual, com visível orgulho, se diz um “profeta”
E que, graciosamente, intitulas “Avant-Garde”
Por quê?!
Para onde imaginas que possa te conduzir
Esse caminho deserto?
Vamos, Besta-de-Diamante!
O que encenarás da próxima vez?
Um pintor? Um poeta? Um músico?
Ou um despretensioso pastor de ovelhas? Heim?! O que?!
Qual será a sua próxima roupa?
Um guarda-pó? Um cachecol?
Ou uma imunda manta de estopa?
Qual belo disfarce escolherás da próxima vez?

Ora, Coisa-Obscena, que clandestinamente habita
o meu espaço, os meus mais sagrados momentos
que como um demônio do Outro Mundo
se apossa dos meus sentidos (!)
...Por que não te apresentas nu perante as estrelas?
Por que não nos mostra de uma vez por todas
as cicatrizes em seu rosto de anjo?

Por que tanto me criticas, Voz-Quadrifônica
que à distância se rebela?
Que me surpreende, jogando-se das nuvens (?)

Eu sei, Voz-Patética
Também tu não sabes como aqui chegaste
não é mesmo?

Claro que sei, Vírus-Dadá!
Só não tenho poder para te explicar tudo desde o início...
Talvez se entendesses minhas palavras rasgadas
em meio ao temporal de conclusões
que habitualmente crias em sua proto-cabeça...
Certamente não te converterias assim num Ser-Pueril
Mas, antes, se contrairia
Tornar-se-ia seco, e o vendaval te varreria para sempre do mapa
Para além daqueles vidrinhos coloridos; veja!

...O Grande Deus-de-Borracha aponta para a enorme redoma de vidro
que encobre toda a planície. E então o céu torna-se fel, trevas.
Nuvens ameaçadoras, como vísceras putrefatas, sobrevoam os dois seres, que, absortos, conversam em uma pequena ponte de madeira.
Um raio em forma de mão risca longitudinalmente o céu, incandescendo-o, como se quisesse, num golpe certeiro, apanhar os dois corpos.

Que se afastem de mim os seus estranhos poderes
Oh, Grande Deus-de-Borracha!

Não, Anjo-sem-Asas!
Não te libertarás facilmente dos meus domínios!
Pois eu sou o Núcleo da tua razão!

...Zigstophell sai correndo, como um vampiro ferido
...O Grande Deus não esboça a mínima reação para contê-lo
...Ao transpor a ponte, Zigstophell para, olha para trás, e grita:

“Estou livre de ti, Monte-de-Ideias travestido de saber!”
E então, subitamente, a vegetação ao seu redor o agarra...

...E em cada flor, Zigstophell vê pares de olhos vermelhos
...O riacho quase transborda, e abandona seu leito

...Lentamente, com movimentos dignos, o Grande Deus-de-Borracha
Vai ao encontro de Zigstophell...