Nada





Afaste-se de mim com seus cordões elétricos!
Não! Não sei até que ponto me és útil
Nem sei se, te negando, me torturo ou me salvo
No fundo, talvez, eu tema a loucura da realidade
Que verei após a turva neblina
Será novamente acorrentado o meu destino?

ONDAS TENTADORAS

Não, Besta-Moderna. Não percebes tu, durante todo o seu pensar?
Não te apercebes, Homem-Sol-sem Luz, que já estás livre?
Solto no cais, e que sois, ainda que visto de além mar, um transatlântico?
E não uma jangada, nem também o barquinho de papel, com que agora brincas?
Vamos, Santo-Demônio!
Vá de encontro às ondas! São azuis as ondas
E agora é de aço o teu peito

Chave Nuovi

Não! Não, Deus que estica mas não se parte
Não me deixarei iludir pelas luzes que brilham em seu mundo
Milhões delas não me valem, sequer, um raio de Sol.

A voz do Grande-Deus cessa, e Zigstophell recupera a precisão e a leveza dos seus movimentos
Só então se vê novamente a vida em seu rosto...

Palavras Secas
Não, Voz-Misteriosa; tu é que se precipita, que se torna pateticamente eufórica diante de qualquer brilho. Talvez por viver assim sufocada nesse caleidoscópio infinito, onde tudo é belo, porém intocável...
...Sabes bem disso, não é mesmo?
Quanto a mim, é verdade que amo as ondas. E sei também que nada, nada! Nada posso delas cobrar, pois mesmo que passe toda a eternidade sentado em alguma praia, jamais tornaria a ver a mesma onda. Veria talvez ondas mais lindas, mas nunca aquela que pintei em meus quadros.
Toda coisa bela é única; e quanto mais bela, mais efêmera e incontida.

Investigação Suicida
Perfeito, Zigstophell. Temes então prender-se às coisas a que, naturalmente, seus olhos se prendem. Por que não vives de uma vez com esses teus olhos ingênuos fechados?
Conseguiria assim conter também mais tranquilamente suas lágrimas seculares, que na certa se derramadas sobre essa planície, todo ser vivo afogariam, pois teríamos então dois oceanos.
Fique assim como estás, Covarde-Abstrato, acariciando distraidamente grãos de areia. Afinal, eles não estão tão perto de ti? Ao alcance dessas suas mãos nervosas (?) Conte-lhes, Zigstophell, com paciência infinita, e com todos os detalhes que imaginar, esse teu grande segredo colorido. Talvez eles tenham também algo a lhe dizer.

Retorne (segundos efeitos)
Olhando como um gato alucinado para as paredes manchadas e cheias de teias de aranha, Zigstophell visualiza, bem perto de si, a planície...
 (uma voz: “you!”)
Como chegastes até aqui tão rapidamente, Zigstophell? Por qual novo caminho viestes hoje me visitar? Pelo das nuvens? Pelo das doces nuvens de algodão? Ou pelo de espinhos?
(outra voz: “Not me”)

Pássaros voando...

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Ah, Ser Surpresa
que me visita
nos momentos mais impróprios
quando tão distante estou da minha Luz
E tão próximo ao meu inferno (o nosso fim)

...O que desejas agora
Espírito Aventureiro?

Vamos, Ser Prateado!
Tire logo seus trajes de viagem
e inclua-se em mim
Então, conte-me logo as novidades (!)





2º E s p a ç o 

...Oh, Grande Deus de Borracha
...Só agora percebo como, também tu
és no fundo contraditório
Como também tu
tem seus momentos débeis
E por isso às vezes me nega
sua voz blindada
...que, apesar de eu tanto odiar
torna-se, em ocasiões de ócio
tão necessária quanto a Luz solar
Ou mesmo como a inconstante Luz
que passeia solitária pela noite...


...Diz Revoltado o Deus Elástico:  

Enviada por aquela Pobre Louca?
Que obcecadamente te espera, imbativelmente
segundo após segundo
Além daquelas árvores (aponta)
trazendo-lhe deliciosas tortas de idéias?

ZIGSTOPHELL, pensativo, encosta suavemente o rosto indecifrável
junto ao tronco úmido de uma amoreira, e, com um leve tom de ironia
vai dizendo, quase que em sussurros:

Torta de Ideias, Deus Injusto?
...Ela apenas me oferece saladas de frutas


Nine Voice

Sim, Voz Síntese
Nada daquilo é digerível

Como não, Ser Esquisito?
O que importa, uma coisa ou outra?
Se qualquer uma delas é feita com amor (?)
Com um único objetivo:
Torna-te, um Quase-Inseto de asas demasiadamente longas
porém sem rumo
num Grande Deus, assim como Eu (!)


...Assim?! De borracha?
Disforme?

...Não. Eu fico com a Tatoo
...Mesmo sem onde colá-la
nestas planícies
onde sua Neurótica Igreja tudo controla...

"...Com exceção do Peixinho Lilás" - reflete melhor Zigstophell

Não a colarei em nada!
Muito menos naquela...

Contenha-se, Inconsequente Ideia!
Ou eu te pulverizo com meu spray de desintegração instantânea!
...Veja, trago-o aqui agora.


(Nota: nos manuscritos originais há o desenho de uma frasco de spray, escrito "Sun" no rótulo)


Não, Grande Válvula das Minhas Angústias!

Tudo 
Troca de script
Deturpação das minhas clássicas origens
Tudo!
Menos esse gás

...Deixe-me vagar como uma mula cega
por esses teus bosques e campos
Por onde sempre surge um caminho agradável
Onde criaturas mágicas me interpelam
Como o Pinguinho, o Peixinho-Vida que me enviaste ainda há pouco

...Ah, sim. E vocês conversaram?

Sim, um pouco...
Depois eu lhe declamei uns versos
"Aos Mortos"